Em uma operação tática, a comunicação por rádio não é um recurso de apoio. Como elucida Ernesto Kenji Igarashi, ex-coordenador da equipe tática da Polícia Federal durante a visita do presidente americano George Bush, em 2006, é a espinha dorsal que mantém a equipe coesa, coordenada e capaz de responder de forma integrada a situações que evoluem em segundos. Quando a comunicação falha, cada operador passa a tomar decisões com informações incompletas, e o risco de ação descoordenada, duplicação de esforço ou exposição desnecessária aumenta exponencialmente. Apesar disso, a disciplina de comunicação em rádio é uma das mais negligenciadas nos treinamentos operacionais de equipes de segurança no Brasil.
Se a sua equipe usa rádio em operações e ainda não tem um protocolo formal de comunicação, este artigo é urgente para você. Leia e aplique.
Por que a maioria das equipes se comunica mal pelo rádio, mesmo com equipamentos de qualidade?
O problema raramente está no equipamento. Rádios de última geração com criptografia, cobertura ampla e bateria de longa duração não resolvem o que é, em essência, uma falha de treinamento e cultura operacional. Comunicação eficiente por rádio exige disciplina de linguagem, que significa usar menos palavras para transmitir mais informação, e essa disciplina é contraintuitiva para quem está habituado à comunicação cotidiana. Em situações de alta tensão, o operador sem treinamento específico tende a falar demais, a usar linguagem ambígua, a transmitir emoção em vez de dado e a ocupar o canal no momento em que outros membros da equipe mais precisam de acesso a ele.
Como pontua Ernesto Kenji Igarashi, a falta de padronização dentro das próprias equipes é outro fator crítico. Quando cada operador usa seus próprios termos, abreviações e referências de localização, a comunicação entre membros diferentes da equipe se torna lenta e propensa a erros de interpretação que podem ter consequências operacionais sérias. Em operações que envolvem mais de um grupo, ou que exigem integração com outros órgãos de segurança, a ausência de um protocolo comum cria barreiras que o próprio design do rádio não consegue superar. O equipamento compartilha o sinal. O entendimento precisa ser construído antes da operação começar.
A pressão do ambiente operacional amplifica todos os vícios de comunicação que existem no treinamento. Um operador que fala muito ou usa linguagem imprecisa em um exercício vai fazer o mesmo, com mais intensidade, quando estiver sob estresse real. Conforme Ernesto Kenji Igarashi, isso significa que o padrão de comunicação aceitável no treinamento é o padrão mínimo que aparecerá em campo. Equipes que toleram comunicação desleixada durante exercícios estão aceitando, implicitamente, que essa será a qualidade da comunicação quando ela mais importar.

Quais são os elementos fundamentais de um protocolo de comunicação tática eficiente?
Todo protocolo de comunicação tática começa pelo estabelecimento de identificadores únicos para cada operador e para cada setor ou posição da operação. Esses identificadores precisam ser curtos, fonética e acusticamente distintos entre si, e memorizados por todos os membros da equipe antes do início da operação. O uso de nomes próprios ou de postos hierárquicos na comunicação por rádio em situações táticas é um erro comum que cria ambiguidade e expõe informação desnecessária. Identificadores operacionais funcionam como um vocabulário compartilhado que todo o time fala com fluência.
De acordo com Ernesto Kenji Igarashi, a estrutura da mensagem é o segundo elemento fundamental. Uma transmissão eficiente segue uma sequência lógica que começa pela identificação de quem está chamando e de quem está sendo chamado, passa pela mensagem em si, que deve ser o mais concisa possível, e termina com a confirmação de recebimento. Esse formato elimina incertezas sobre se a mensagem foi recebida, sobre quem precisa responder e sobre se houve ruído ou distorção que comprometeu o conteúdo. Em operações de alta criticidade, a repetição da mensagem pelo receptor antes da confirmação é uma prática que elimina erros de interpretação que poderiam ter consequências graves.
Como treinar comunicação por rádio para que o protocolo funcione sob pressão real?
O treinamento de comunicação por rádio precisa ser progressivo e deliberadamente desconfortável. A primeira fase envolve o domínio do protocolo em condições controladas, com exercícios de transmissão e recebimento de mensagens padronizadas até que a estrutura seja completamente automática para todos os membros da equipe. Nessa fase, erros de protocolo devem ser corrigidos imediatamente e sem tolerância, porque o objetivo é construir um hábito tão sólido que ele persista mesmo quando o operador estiver sob tensão máxima.
A segunda fase introduz complexidade progressiva: comunicação durante a movimentação, em ambientes com ruído físico elevado, com informações chegando simultaneamente de múltiplas fontes, e com decisões que precisam ser tomadas a partir do que foi transmitido pelo rádio. Esse tipo de treinamento revela onde o protocolo quebra e quais operadores têm dificuldades específicas que precisam de atenção individual. Segundo Ernesto Kenji Igarashi, a tendência de voltar ao comportamento improvisado quando a pressão aumenta é universal, e o treinamento precisa criar resistência exatamente a essa tendência.
Cenários de degradação são essenciais e raramente incluídos nos programas de treinamento. O que faz a equipe quando o rádio de um operador falha no meio de uma operação? E quando o canal primário é comprometido? E quando o ruído ambiente impede a recepção clara? Cada um desses cenários precisa ter um protocolo de contingência conhecido por todos, treinado repetidamente e ativado de forma quase reflexa quando a situação exige. Equipes que só treinaram comunicação em condições ideais são equipes que vão improvisar quando as condições não forem mais ideais, e improvisação em comunicação tática é exatamente o que um protocolo bem treinado existe para eliminar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



