Nem todo comprador internacional de soja quer o mesmo produto. Segundo destaca o empresário Wander Aguilera Almeida, entender essa diferença entre mercados compradores ajuda o produtor a compreender por que a demanda por soja brasileira se comporta de forma tão distinta, dependendo do continente de destino daquele carregamento específico embarcado no porto.
A Ásia e a Europa, os dois maiores blocos compradores da soja produzida no Brasil, historicamente concentram interesses bem diferentes dentro da mesma cadeia produtiva, o que molda a forma como cada região negocia com o mercado brasileiro ao longo de todo o ano agrícola.
Por que a Ásia compra majoritariamente o grão em si?
Países asiáticos, com destaque para a China, concentram boa parte das compras do grão em estado bruto, priorizando processá-lo internamente em suas próprias indústrias de esmagamento já bem estabelecidas. Conforme observa Wander Aguilera Almeida, essa preferência está ligada tanto à escala industrial já instalada nesses países quanto a barreiras tarifárias que encarecem bastante a importação de produtos já processados, como o óleo refinado.
Essa estrutura tarifária escalonada, mais branda para o grão e mais pesada para farelo e óleo, incentiva fortemente a compra do produto bruto por parte desses países. O resultado é uma cadeia asiática de esmagamento cada vez mais dependente do volume de soja brasileira exportada em estado natural, sem qualquer processamento prévio realizado ainda em território brasileiro.
Por que a Europa historicamente pesa mais em farelo e óleo?
O continente europeu, historicamente, tem uma relação diferente com o complexo da soja: além do grão bruto, importa quantidades relevantes de farelo, destinado à sua própria indústria de ração animal, já consolidada há décadas. Sob essa ótica, Wander Aguilera Almeida expressa que essa demanda por farelo está diretamente ligada à robusta cadeia de proteína animal europeia, que depende desse insumo para sustentar a produção de carnes e laticínios do continente.

Essa característica torna a Europa um comprador mais sensível a variações na indústria brasileira de esmagamento, já que parte relevante da demanda europeia depende diretamente da capacidade instalada de processamento no Brasil, e não apenas da disponibilidade do grão bruto colhido diretamente em campo pelo produtor.
O que essa diferença representa para quem produz no Brasil?
Entender esse contraste ajuda o produtor a interpretar melhor as flutuações de demanda vindas de cada região compradora ao longo do ano. Dentre o que analisa Wander Aguilera Almeida, um enfraquecimento da demanda chinesa pelo grão tende a pressionar diretamente o preço pago ao produtor, enquanto mudanças na demanda europeia impactam mais diretamente as indústrias de esmagamento instaladas dentro do próprio país.
Diversificar o conhecimento sobre para onde a produção está indo, mesmo que indiretamente por meio de comercializadoras e cooperativas, ajuda o produtor a entender melhor os movimentos de preço que aparecem nas propostas recebidas ao longo da safra inteira, região por região.
Como a expansão da indústria brasileira muda esse equilíbrio?
A capacidade brasileira de esmagamento vem crescendo de forma consistente ao longo dos últimos anos, permitindo ao país processar internamente uma fatia maior da própria produção antes de exportar. Conforme considera Wander Aguilera Almeida, essa mudança gradual altera o equilíbrio entre os dois mercados, já que parte do grão que antes seguia bruto para a Ásia passa a ser transformado em farelo e óleo dentro do próprio território nacional.
Esse movimento cria uma disputa interna interessante: indústria e exportadores de grão bruto competem pela mesma matéria-prima, especialmente em safras mais apertadas. Quanto mais forte a demanda interna por processamento, maior a concorrência que o produtor encontra entre diferentes tipos de comprador na hora de negociar sua produção.
O que fica claro ao comparar os dois mercados?
Nenhum dos dois mercados é mais importante que o outro de forma absoluta; cada um cumpre um papel distinto na sustentação da demanda pela soja brasileira ao longo do ano inteiro, safra após safra. Reconhecer essas diferenças, em vez de tratar a exportação como um bloco único e homogêneo, é o que permite ao produtor entender com mais profundidade de onde vêm as oscilações de preço que chegam até a sua propriedade.



