Noticias

Taiza Tosatt Eleoterio reflete: O que muda na autoestima de quem cresce ouvindo humilhações em casa?

Como observa Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista e especialista em saúde mental e relações familiares, humilhações repetidas dentro de um relacionamento abusivo raramente deixam marcas visíveis de imediato. Elas corroem a autoestima aos poucos, em silêncio, até que a pessoa nem consiga mais identificar onde termina a própria opinião sobre si mesma e onde começa a voz de quem a humilhou durante anos.

Isso acontece porque a autoestima não se forma isolada da convivência diária. Ela se constrói, em grande parte, a partir do que os adultos mais próximos repetem sobre quem a criança ou o adulto em relação abusiva é. Quando essas mensagens são constantemente depreciativas, a pessoa passa a incorporá-las como verdade, e não como opinião de alguém específico.

Entender esse processo ajuda a explicar por que sair fisicamente de um ambiente humilhante não resolve, sozinho, o problema que ele deixou por dentro.

Como a humilhação repetida se transforma em crença sobre si mesmo?

Uma ofensa isolada costuma ser esquecida com o tempo. O problema começa quando frases depreciativas, comparações desfavoráveis ou desqualificações se repetem ao longo de meses ou anos, até deixarem de parecer opinião e passarem a soar como fato.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que a mente humana tende a internalizar aquilo que ouve com frequência, sobretudo quando vem de figuras de referência, como pais, cônjuges ou responsáveis. Com o tempo, a pessoa humilhada passa a antecipar sozinha os mesmos julgamentos que antes vinham de fora, tornando-se sua própria crítica mais severa, em um quadro que a psicanálise associa à dependência emocional.

Por que a autoestima não se recupera apenas ao sair do relacionamento abusivo?

Um erro comum é achar que, uma vez longe de quem humilhava, a autoestima se reconstrói de forma automática. Não é assim que funciona, porque o dano não está apenas na relação, mas na forma como a pessoa passou a se enxergar dentro dela.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que muitas pessoas relatam continuar se sentindo incapazes, feias ou inadequadas mesmo anos depois de romper com quem as humilhava, justamente porque a crença já foi absorvida como parte da própria identidade. Sair do ambiente é o primeiro passo, não o último.

Quais comportamentos indicam que a autoestima foi comprometida?

Nem sempre a autoestima abalada aparece como tristeza evidente. Muitas vezes, manifesta-se como dificuldade extrema de aceitar elogios, necessidade constante de aprovação alheia ou tendência a se desculpar por qualquer coisa, mesmo quando não há erro real envolvido.

Taiza Tosatt Eleoterio nota que esse tipo de comportamento costuma ser confundido com timidez ou modéstia, quando na verdade reflete uma autoimagem construída sob constante desqualificação, típica de quem viveu um relacionamento tóxico prolongado. A pessoa aprendeu a ocupar pouco espaço porque, durante muito tempo, ocupar espaço foi motivo de humilhação.

Como o corpo e as relações seguintes carregam essa marca?

A autoestima comprometida não fica restrita à mente. Reflete-se em posturas físicas encolhidas, dificuldade de manter contato visual e, com frequência, em relações futuras marcadas pela repetição de dinâmicas parecidas com as vividas antes.

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, é comum que pessoas nessa condição aceitem, em relações posteriores, tratamentos que reproduzem a mesma desqualificação já vivida, simplesmente porque esse padrão parece familiar. A reconstrução da autoestima, portanto, exige atenção também às escolhas relacionais feitas depois de deixar o relacionamento abusivo original.

O que ajuda a reconstruir a autoestima depois de anos de humilhação?

A recuperação, avalia Taiza Tosatt Eleoterio, passa por um processo mais lento do que se costuma imaginar. Envolve identificar, uma a uma, quais crenças sobre si mesmo vieram de fato de dentro da pessoa e quais foram implantadas por anos de repetição alheia.

Esse trabalho de separação entre voz própria e voz internalizada do outro costuma exigir acompanhamento profissional, porque muitas dessas crenças operam de forma automática, sem que a pessoa perceba que está reagindo a um julgamento antigo, e não a uma avaliação real da situação presente. Diante disso, reconstruir a autoestima, nesse sentido, é menos sobre aprender algo novo e mais sobre desaprender o que foi imposto durante tempo demais.

 

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo